– Não dá mais, viu.
– Também acho.
– Melhor você pegar suas coisas e sumir daqui.
– Era isso mesmo que eu ia fazer.
Dez minutos depois...
– Espera aí. Você vai, mas ele fica.
– Negativo. Vou embora mas levo o que é meu. E ele é meu filho.
– Ah, é? E a mãe sou eu. Ele fica!
Um mês depois, encontraram-se pela primeira vez depois da separação. O criativo e a agência em que ele trabalhara por mais de 15 anos, representada pela figura de seu dono. Os dois ali, em frente ao juiz de um desses tribunais que decidem o destino das crianças abandonadas pela sorte. “Pai e mãe” disputando a guarda do filho, o leão que haviam ganhado em Cannes naquele mesmo ano – porque vez ou outra acontece um milagre para assombrar a humanidade.
– Eu quero ficar com ele, Meritíssimo. Sou eu o dono da idéia que ganhou o prêmio. Então, é óbvio que sou o pai do leão – disparou o criativo.
– Mas a agência de propaganda presidida por mim é a mãe, seu juiz! E a lei determina que, se a mãe não for dependente química ou estiver impossibilitada por qualquer motivo, o filho deve ficar com ela. – defendeu-se o ex-patrão.
– Palhaçada. Eu devia ter enfiado o leão na mala e a mão na sua cara!
– E se o pai for violento, então...
– Ordem no tribunal! – ordenou o juiz. – Um de cada vez!
O magistrado ouviu a argumentação do criativo sobre a pretensa propriedade da idéia.
– A gente trabalha até tarde, leva a agência nas costas, vive de pizza e agüenta o atendimento pra depois alguém se apossar da idéia da gente? Não pode, Meritíssimo!
Depois, acompanhou com atenção a defesa do dono da agência a respeito da natureza coletiva do processo de criação em propaganda.
– Grandes soluções podem nascer em reuniões de briefing, pesquisas com consumidores. Que história é essa de dono da idéia?
Dois minutos bastaram para o juiz decidir pelo óbvio.
– O leão fica com a mãe. A agência.
– Quer dizer que eu não vou mais poder ver o menino? Por que, meu Deus? Por que?
– Cale-se, seu desequilibrado. Vai poder vê-lo, sim. Mas somente nos finais de semana. Você pega a criança com a mãe no sábado de manhã e devolve no domingo à tarde.
Para o criativo, nada mais havia a fazer. Afinal, ninguém lhe tiraria a paternidade do leão. E aceitou a decisão da justiça.
– Sendo assim, esta sessão está encer...
– ... mas e a pensão, seu juiz? – inventou de última hora o dono da agência, num insight poderoso.
– Como é?
– A pensão judicial. Se ele é o pai, eu sou a mãe, estamos nos separando e o filho fica comigo, é natural que eu receba uma pensão, correto?
– É justo.
O criativo se manifestou incrédulo. Estava bom demais para ser verdade.
– Mas, Meritíssimo, a agência nem terminou de pagar a minha rescisão contratual!
– Isso não é da minha alçada. Procure o tribunal do trabalho. Quanto à pensão judicial, você vai pagar um terço dos seus rendimentos para a mãe do leão. Todos os meses.
– Mas isso é um absurdo!
– Se não pagar, vai para a cadeia.
– Depois vocês reclamam quando dizem que a justiça neste país é uma mer...
– Se concluir a frase, só sai daqui algemado.
O dono da agência voltou para casa vitorioso, comprometido a contratar a filha do juiz como estagiária da criação. O criativo fugiu para algum lugar entre a Amazônia e a Guiana Francesa. E o leão agora vive uma adolescência problemática, apanhando poeira na estante.
André Gomes (horadapizza@gmail.com) é jornalista e publicitário
POSTAGEM: DANIELLE CAROLINE
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
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